Os Trópicos de Henry Miller

Henry Miller em Big Sur

Existe toda uma aura mística em torno do nome de Henry Miller, especialmente por ele ter tido os seus dois livros mais conhecidos – Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, de 1934 e 1939, respectivamente – banidos no seu país de origem por décadas (aqui no Brasil eles só foram liberados na década de 70). Subversiva, pornográfica e maldita são algumas das palavras que você vai esbarrar repetidamente quando pesquisar sobre a sua obra.

Foi exatamente isso que eu fiz antes de começar a ler esses dois livros, já que conhecia bem pouco a respeito do autor. Descobri que ele nasceu em Nova York em 1891, filho de pais alemães, e que nunca se encaixou no american way of life. Teve mil profissões quebra-galho: foi açougueiro, lavador de pratos, caixeiro-viajante… mas foi só quando abandonou tudo e se mudou sozinho para Paris em 1930 que começou a reunir textos e experiências, que viriam a se tornar o Trópico de Câncer.

Curiosamente, essa noção de que os “trópicos” são literatura erótica me pareceu equivocadíssima. Agora, depois de ler os dois livros, entendo o furor e o choque de uma América puritana ao se deparar com uma escrita tão libertária e original, mas não classificaria os livros como pornográficos. Miller fala sim sobre sexo (entre MUITOS outros temas), de maneira aberta, debochada e até agressiva (especialmente para quem se ofende com palavras ditas “de baixo calão”), mas o grosso da obra tem um cunho muito mais filosófico e contestador do que obsceno. Vamos aos livros:

Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio | Henry Miller

Trópico de Câncer, por Henry Miller – tradução de Beatriz Horta
292 páginas • título original: Tropic of Cancer • José Olympio

Henry Miller abandona sua vida infeliz nos EUA e se muda para Paris, sem um centavo no bolso, onde é apresentado à boemia francesa e redescobre seu talento para a literatura e para a tão sonhada liberdade. O texto é uma mistura de relatos autobiográficos e ficcionais, escrito como um fluxo de pensamento livre, no qual ele descreve seus dias (e noites) de erotismo e deleite em Montparnasse.

O livro é bem humorado e até debochado em determinados momentos. Uma descrição poderosa e franca de um universo habitado por prostitutas, escritores e artistas ~ o submundo de Paris que raramente vem à tona. Acabou se tornando um símbolo da revolução sexual nos anos 60, quando foi finalmente liberado nos EUA. 

Uma curiosidade: Trópico de Câncer só viu a luz do dia graças aos esforços de Anaïs Nin, escritora francesa (cujos romances também são impregnados de conteúdo erótico), amante de Miller e de sua esposa June, que financiou a publicação do livro.

Compre esse livro!

Trópico de Capricórnio, por Henry Miller – tradução de Angela Pessôa e Marcos Santarrita
322 páginas • título original: Tropic of Capricorn • José Olympio

Não se trata de uma continuação de Trópico de Câncer e sim dos anos anteriores à viagem do escritor a Paris. Em Trópico de Capricórnio Miller narra sobre o seu passado em Nova York, seu emprego odioso, a falta de dinheiro e de perspectiva como artista e como ser humano de maneira geral. É um livro mais pessimista e anárquico, não tão bem humorado e leve quanto o anterior. Até o sexo aqui parece mais pesado e menos libertário, uma espécie de fuga da sua realidade opressora. 

Nessa passagem que eu acho especialmente interessante, Miller descreve a sua compreensão do significado de um livro (que poderia muito bem descrever o que eventualmente aconteceu com toda a sua obra): “…o próprio livro desaparece de vista, é mastigado vivo, digerido e incorporado ao organismo como  carne e osso, que por sua vez criam novo espírito e remodelam o mundo”.

Compre esse livro!

Mais Miller:

Henry Miller and Son Tony, Big Sur, California by Mary Randlett

Henry Miller e o filho Tony em Big Sur, California, maio de 1950, por Mary Randlett | via Portland Art Museum.

Esse artigo do The New Yorker sobre livros banidos, que contextualiza o panorama favorável para a publicação de livros em língua inglesa na França, na década de 30 (estrelando, claro, o Trópico de Câncer).

Trópico de Câncer tem um papel essencial no comecinho do filme Depois de Horas (After Hours, 1985), uma comédia ótima e pouco conhecida do Martin Scorsese, já assistiram?

Três minutinhos de Henry Miller, então com 77 anos, numa entrevista para a TV em Quebec em 1969.

Um depoimento “meigo” do escritor a respeito de sua cidade-natal Nova York. ;)

This entry was posted in livros. Bookmark the permalink.

61 Comentários

  1. olha, eu já tinha escutado falar sobre esses livros. Mas, nunca fui a fundo pra pesquisar.
    Gostei da sua resenha ;)
    bj

  2. Betty Gaeta disse:

    Oi Camila,
    Li ambos os livros, mas já faz tempo. Lembro que gostei e classificaria com “debochados e desbocados”. Pornográficos? Não sei, mas não recomendaria como leitura para FTP.
    Beijos

  3. Felipe Lange disse:

    Oi Camila, tudo bem?
    Ainda não conhecia. Adorei o post!

  4. Oi, Camila!

    Achei bem interessante a proposta dos dois livros… Conhecia o autor só “pelo nome”. Agora lembrei de onde: Gilmore Girls. Tem uma cena em que a Rory está lendo um livro dele…

    Abraços, Cris

  5. Simone disse:

    Hey Cá, nunca tive ouvido falar do escritor e da sua literatura e engraçado que é um gênero que agrado muito, e mais engraçado ainda que por ser polêmico deveria ter uma certa relevância na literatura, me formei em Letras recentemente e nos 4 anos de curso nunca ouvi falar né … Anotarei o nome para quando minha condição financeira melhorar, comprar para ler! Abraços querida!

    • Camila Faria disse:

      Oi Simone, o Henry Miller é super relevante para a literatura, especialmente dentro dessa “categoria” de livros banidos, à frente do seu tempo. Acho que você vai curtir. Abraços!

  6. Não conhecíamos o autor, parece ser dois livros interessantes mesmo não sendo um gênero que estamos acostumadas a ler.

    Beijos

  7. Quando não há liberdade para se falar abertamente sobre determinados temas tão naturais, como o caso do sexo, esse género de censura acaba por adquirir proporções claras.
    Confesso que não conhecia, mas fiquei bastante curiosa!

    r: Oh, tão bom. Obrigada *-*

  8. Bem bacana esses livros achei bem interessantes.
    Beijos

  9. Jéssica disse:

    Nunca tinha ouvido falar desses livros!
    Talvez porque eu não sou acostumada a ler muitos livros :(
    Mas me pareceu interessante, principalmente o primeiro ” Trópico de Câncer.”
    Um beijo :*

  10. Fiquei curiosa em ler a obra.
    big beijos

  11. Camila, não o conhecia e também não conhecia esses livros. Fiquei bem curiosa com eles!

    Beijo!

  12. Emerson disse:

    Não conhecia os livros. Muito legal você falar mais deles.
    Boa semana!

    Até mais, Emerson Garcia

  13. Acredita que eu não conhecia esses livros.

    Beijos

  14. Dai Castro disse:

    Eu já ouvi falar da obra dele, mas nunca tinha lido um texto que despertasse verdadeiramente a minha vontade de conhecê-lo! Eu acho que os livros trazem reflexões muito interessantes que vão além do que a obra dele é taxada.
    Adorei a dica e já quero ter esse contato com a obra do autor! Um beijo!

  15. walter disse:

    Oi Camila. Como você está? Parece muito interessante os livros do Henry, mas pra ser sincero eu não conhecia hehehe, bom… fica a recomendação então p mim. Vou dá uma olhada depois se encontro algo pra ler. Não é o tipo de leitura que tô acostumado, mas parece ser interessante. :)

  16. Quero ler os dois, fiquei super curiosa.

    Beijos.

  17. Maira Namba disse:

    CARA olha essas capas <3 to apaixonada! não conhecia ele como autor e nem os livros, mas achei interessante, principalmente por se tratar de assuntos muito tabus!

    acho muito sensacional autores assim, que descrevem a vida de uma forma mais debochada, e diferente.

    adorei a dica viu <3

  18. Já tinha ouvido falar desses livros, mas não fazia ideia do seu conteúdo ou da polémica envolta neles. A verdade é que fiquei curiosa por ler. :)

  19. Nunca ouvi falar desses livros, achei bem interessante
    Beijos

  20. Não conhecia esses livros e acho que eles “chocaram” na época pq as pessoas eram [ou fingiam] ser puritanas.

    Beijos/Kisses.

  21. Nunca tinha ouvido falar desses livros Camila! Adoro o tanto que aprendo aqui <3 em um post de resenha, já conheci contextos históricos, pessoais e de quebra, literários!!! <3

  22. Não conhecia os livros, mas fiquei curiosa.
    Vou dar uma pesquisada sobre o autor.
    Bjus!

  23. Helen disse:

    comecei tropico de cancer ano passado, e dei uma paradinha em janeiro, creio que li 70% do livro. mas é fascinante! lembro de estar viajando para joão pessoa e a moça do meu lado (lendo padre fábio!) ficou curiosa com o nome, achou que tinha a ver com astrologia. e eu lá tentando explicar educadamente do que se tratava hahaha. bom, pretendo continuar e reler, adoro a escrita, adoro os autores que ele inspirou. amo, amo, amo textos crus e que dão uma sensação de “o que eu digo rasga e fere a realidade que você quer impor para si e para seu mundinho”, sabe? a subversão… é algo que me chama demais. fico feliz de ler sobre ele aqui! pouco sabia dele e de pessoas que curtem :)

  24. Kaila Garcia disse:

    Tô apaixonada por essas histórias, que premissa mais incrível. Ainda não conhecia!

  25. Claudia Hi disse:

    Nunca tinha ouvido falar desse autor, mas gostei da sua resenha que é bem completinha e ainda apresenta um pouco do escritor. Sempre gosto de ver o rosto das pessoas!

  26. Amiga, nao sei se você sabe mas eu dou sempre uma consultada nas suas resenhas na hora de escolher meus próximos livros. Acabei de termina “A festa da insignificância” e anotei um outro de um escritor espanhol. :)

  27. Não o conhecia boa partilha

  28. r: Agradeço, de coração! Muita mesmo *-*

  29. Miguel disse:

    Sim, querida, daí ser a minha favorita ever :D

    Não conhecia :D É precisamente por este género de coisas que adooooro vir ao teu blog… super informativo :D

  30. Que partilha interessante. Obrigada Camila! Fiquei curiosa ;)
    Um beijinho *

  31. Tão curiosa que fiquei para ler! Adorei

  32. Acredita que eu nunca ouvi falar do autor nem dos livros? Sabe, o conservadorismo acaba que nos molda a torcer o nariz para algumas coisas, só por ter sido considerado pornográfico eu não leria se fosse a uns 3 anos atrás. Por isso é sempre bom ir atrás de ler para achar seu próprio ponto de vista
    Beijos

  33. Livia disse:

    ah, desde que vi resenha da Tati Feltrin desses livros to curiosa pra caramba pra ler! eu só li coisas mais nesse estilo, Bukowski etc na época da adolescencia e quero mt conhecer melhor esse autor

  34. Julie Chagas disse:

    Confesso que queria ter mais tempo para esse tipo de coisa, pois achei bem legal! Uma pena minha vida ser sempre tão corrida!

  35. Taís disse:

    Adoro suas resenhas, Cá e sempre confio no seu bom gosto. Confesso que nunca tinha ouvido falar desses livros ou do autor, mas fiquei muito interessada pela proposta de ambos. Dica anotada!

  36. Thayse disse:

    Gente, que louco isso de taxarem a obra de uma coisa ou outra por conter algo relacionado a sexo, sabe? Mas que legal que tu pesquisou, foi atrás e descobriu um universo do autor nesses livros. Bem interessante, fiquei curiosa pra ler.


    Beijos

  37. Simone disse:

    Já ouvi falar, mas nunca me aprofundei sobre os livros. Achei bastante interessante.

  38. Olá, Camila.
    Não conhecia o autor nem os livros ainda. Falou que foi proibido já me interesso em ler hehe. Imagine se esse povo ai lesse Cinquenta tons então hehe.

  39. Joana Claro disse:

    Confesso a minha ignorância… não conhecia!

  40. Ana beatriz disse:

    Eu fiquei super interessada, não conhecia o autor e gosto muito de obras de décadas anteriores. Acho legal refletirmos sobre o pensamento que o autor tinha, o que ele viveu, suas experiências (por isso gosto de Martha Medeiros, apesar de ser uma comparação mais atual e bem menos ousada).

  41. Marta Moura disse:

    Com cerca de 17 anos comecei a ler o Trópico de Câncer mas deixei a meio, não estava a achar grande piada. Se calhar, agora que já sou mais crescida, é uma boa altura para voltar a pegar nele. :)
    Curiosamente estou a ler o Henry & June.

  42. Um escritor com uma escrita poderosa. Nunca li mas tenho curiosidade. Boa partilha.
    Xoxo from Portugal

  43. Paula Lopes disse:

    Acredita que ainda não conhecia?! Mas sua postagem conseguiu me deixar interessadíssima, já coloquei até na minha lista. Tenha um ótimo dia, beijos!

  44. Fernanda disse:

    Oi oi! Puxa, lendo essa resenha decidi vir fazer o que há tempos me cobro: te parabenizar pelo seu trabalho no blog. Em tempos de enxurrada de conteúdo de teor duvidoso, você se mantém com qualidade e autenticidade. É um dos poucos que permanecem na minha lista de leituras desde anos atrás. Vida longa ao naomemandeflores!
    Beijos,

    • Camila Faria disse:

      Nossa Fernanda, obrigada por esse comentário tão querido! Você fez o meu dia. :) E obrigada por me acompanhar por todos esses anos. Um beijo grande! :*

  45. Paloma disse:

    Adorei a sua resenha! Bem completinha e colocou todos os principais pontos que o autor quis passar em cheque. Nao conhecia os livros, mas gostei bastante da proposta. Quero conhecer a escrita ácida de Miller! Por essas e outras que so falo de um livro depois de ler…ás vezes nao é nada daquilo que o povo esta falando!
    Obrigada pela sua sincera opiniao.
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *