
1. Garota, Mulher, Outras, por Bernardine Evaristo – tradução de Camila Holdefer
496 páginas • título original: Girl, Woman, Other • Companhia das Letras
A ideia central do romance, um dos mais comentados e aclamados de 2019, não me pareceu muito promissora/inovadora à princípio. 12 capítulos, cada um deles narrado por uma mulher diferente, com histórias que se conectam e se completam. A premissa me deixou sim um pouco cética, mas… que romance incrível! Um dos principais méritos da narrativa é a facilidade com que Evaristo salta de personagem em personagem, criando uma voz única e autêntica para cada uma delas. As histórias são interligadas de forma tão elegante, que recuperaram a minha esperança no estilo. Amma é a personagem central, uma dramaturga lésbica negra, cuja nova peça está sendo produzida no National Theatre em Londres ~ e é a partir da sua narrativa que o romance decola. São 12 mulheres cujas vidas se sobrepõem, mas cujas histórias não poderiam ser mais distintas. Evaristo é a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize (ela compartilhou o prêmio em 2019 com “Os Testamentos” de Margaret Atwood, a sequência de “O Conto da Aia”). Recomendo demais, especialmente se os temas identidade, privilégio, feminismo e experiência feminina negra estão no seu radar de interesse.
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2. Ressurreição, por Liev Tolstói – tradução de Rubens Figueiredo
448 páginas • título original: Воскресение • Companhia das Letras
A vida do príncipe Nekhliúdov, um nobre e abastado proprietário de terras, muda drasticamente quando ele se depara com Máslova no banco de réus de um julgamento do qual participa como membro do júri. A prostituta acusada de roubar e assassinar um cliente é, na verdade, uma antiga serva, enganada e abandonada por ele no passado. O choque do reencontro e a injustiça da sentença desencadeiam uma crise de consciência no príncipe, que passa a revisitar e questionar todas as suas decisões até agora. Mais do que isso, o príncipe começa a entrar em conflito com o seu estilo de vida burguês e a rejeitar os seus pares e os seus privilégios. Último romance de Tolstói, escrito quando ele tinha setenta anos, como parte de uma campanha em defesa dos dukhobóri, uma seita/comunidade de cristãos que negava a propriedade, o governo, o Estado (eles se negavam a jurar lealdade ao Tsar), o dinheiro e a Igreja. Seu estilo de vida pacifista e igualitário atraía o autor, que negociou os direitos autorais do livro para enviá-los ao Canadá ~ e aproveitou para inserir no romance muitos dos temas que os uniam (além de traços autobiográficos, como o romance com uma criada e a sua inclinação a desfazer-se de bens materiais). Ressurreição tem uma certa fama de ser um livro “religioso”, o que me espanta, já que a sua crítica da sociedade como um todo é MUITO mais forte do que qualquer teor moralista ou evangélico. O romance é um ataque duro e nítido aos sistemas judiciários e prisional ~ e Nekhliúdov chega à conclusão que muitos de nós também chegamos, mais cedo ou mais tarde: o que é a justiça, senão a manutenção dos interesses de uma classe? Maravilhoso.
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3. Queer, por William S. Burroughs – tradução de Christian Schwartz
144 páginas • Companhia das Letras
Cidade do México, início dos anos 50. Lee (o alter ego de Burroughs) já é praticamente um local no submundo da marginalidade mexicana, onde perambula de bar em bar à procura de companhia ~ e onde tenta superar uma abstinência de drogas à base de muito álcool. Depois de rejeitar uma série de candidatos que considera inadequados, Lee volta a sua atenção para Allerton, um jovem de traços simples e infantis, de comportamento evasivo e quase sempre desinteressado, por quem ele acaba se apaixonando. O esforço de Lee para se fazer querido e admirado por Allerton é desolador. Chega a doer quando a gente percebe que as suas performances chocantes, seus monólogos absurdos e bem humorados não surtem nenhum efeito ~ ou surtem o efeito contrário: Allerton parece cada vez mais indiferente a ele, irritadiço e frio. A viagem dos dois para o Equador em busca da ayahuasca, ao invés de ajudar, só aumenta a necessidade de Lee por contato e exacerba suas inseguranças. Definitivamente um triste relato sobre um amor não correspondido. O livro, que faz parte da trilogia que começa com Junky e termina com Almoço Nu, foi escrito em 1952, mas só foi publicado em 1985 devido, em parte, à sua temática homossexual e, em parte, à recusa do autor em revisitar lembranças extremamente dolorosas, desagradáveis e dilacerantes. Burroughs revelou (na introdução à primeira edição) que o livro foi motivado pelo tiro acidental que causou a morte de sua esposa em 1951.
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4. Terra Estranha, por James Baldwin – tradução de Rogério W. Galindo
544 páginas • título original: Another country • Companhia das Letras
Se as primeiras páginas de Terra Estranha não te transportarem para a Nova York dos anos 50 ~ e se a narrativa ágil, envolvente e minuciosa do James Baldwin não te arrebatar logo de cara ~ você tem uma pedra no lugar do coração. Que romance! A história central se desenvolve a partir do relacionamento de Rufus Scott e Leona, um baterista negro, nascido e criado no Harlem e uma garçonete branca e sulista, recém-chegada na cidade. A relação entre os dois é violenta, triste, fadada ao fracasso. Os demais personagens são igualmente importantes e belissimamente construídos: Ida Scott, a irmã cantora, o melhor amigo Vivaldo Moore, irlandês branco e aspirante a escritor, Richard e Cass Silenski, o casal heterossexual em crise. Seus encontros e confrontos acontecem de forma tão orgânica que a gente se sente parte desse universo racial e social. Não sei como o James Baldwin consegue, mas ele aborda tantos temas valiosos (sexualidade, racismo, sexismo, opressão, entre outros), de forma tão comovente e bonita… Um primor!
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