
1. Sobre a Verdade, por George Orwell – tradução de Claudio Alves Marcondes
208 páginas • título original: Orwell on Truth • Companhia das Letras
Se existiu um autor que soube prognosticar (muito bem) como seria viver uma realidade totalitária e cruel, esse autor foi George Orwell. Quem diria que estaríamos hoje, não apenas lendo sobre os tempos difíceis que ele descreveu tão bem em seus textos, mas também vivendo-os. (insira aqui uma lágrima) Sobre a Verdade é uma coletânea de escritos do autor, retirados de ensaios, reportagens, cartas e romances, sobre o tema da verdade. Triste constatar que, 70 anos após a sua morte (Orwell morreu em 1950 de tuberculose, aos 46 anos), assuntos como os horrores do nacionalismo passional e a tendência a duvidar da existência da verdade objetiva estariam tão em alta. Uma leitura necessária e assustadoramente atual. Vale ressaltar que o livro foi lançado num formato pequeno/mini (10.8 X 16 cm) ~ eu tomei um susto quando ele chegou por aqui.
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2. Narciso em Férias, por Caetano Veloso
168 páginas • Companhia das Letras
Um relato de cárcere, como só Caetano poderia escrever: cheio de poesia, de divagações delirantes (e pertinentes), quase filosóficas, narrado com uma sinceridade comovente. Narciso em Férias não é um livro inédito, trata-se da publicação de um capítulo (homônimo) de Verdade Tropical, lançado originalmente em 1997. Nele, Caetano Veloso relata em detalhes os 54 dias que passou detido durante a ditadura militar, todo o surrealismo e todo o absurdo da sua detenção (sem nenhuma justificativa oficial, é bom destacar). Esse absurdo fica ainda mais evidente depois de ler os registros do processo aberto contra o cantor, incluídos no final do livro (e que Caetano só foi ter acesso em 2018): uma mistura de piada de mau gosto, desinformação e abuso de poder. Recomendo a leitura ~ e essa edição bacana da Companhia das Letras, de capa dura.
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3. O Túmulo de Lênin, por David Remnick – tradução de José Geraldo Couto
736 páginas • título original: Lenin’s Tomb • Companhia das Letras
David Remnick é um nome de peso no jornalismo americano, especialmente (e merecidamente) reconhecido pelo seu trabalho como editor do The New Yorker desde 1998. Em meados nos anos 80 Remnick teve a oportunidade de estar onde qualquer jornalista político adoraria estar: no olho do furação da Perestroika, como correspondente do jornal Washington Post na Rússia entre 1985 e 1991. O livro, vencedor do prêmio Pulitzer, é um mosaico com centenas de reportagens feitas na época e reúne as entrevistas e conversas do jornalista com figuras diversas, de pessoas comuns aos mais altos membros (e ex membros) do Partido Comunista. Um retrato impressionante do colapso da União Soviética, o livro esmiúça o conturbado (e lento) processo de abertura política e de transparência no governo, que permitiu o (ocasional) acesso a documentos secretos e a, consequentemente revelação das muitas violências do partido como instrumento de luta e de permanência do poder. Eu já estava familiarizada com o estilo irônico (e meio debochado) do Remnick e acredito que esse tom mais leve tenha sido um dos motivos do sucesso do livro ~ mas confesso que, depois de um tempo, estava achando um pouco desnecessário o certo orgulho infantil que o autor demonstra das suas investidas, fazendo chacota de figurões decadentes. Não precisava, o trabalho de pesquisa e exposição das informações reveladas no decorrer da história são incríveis por si só.
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4. Arquivo das Crianças Perdidas, por Valeria Luiselli – tradução de Renato Marques
424 páginas • título original: Lost Children Archives • Companhia das Letras
Fazia tempo que eu não lia uma história tão curiosa e tão cheia de camadas quanto essa. Nesse road-book, cuja trama se passa quase toda dentro de um carro, acompanhamos a viagem de uma família prestes a ruir. Cada um dos personagens está imerso no seu próprio universo e a gente consegue pressentir a aproximação do precipício (e somos inexoravelmente atraídos na sua direção). Apesar do pano de fundo ser uma crise conjugal, a tensão do livro se dá através de temas mais profundos. A crise da imigração nos EUA é o principal deles e a história trata especialmente do caso de crianças que cruzam a fronteira do México, são presas e separadas de suas famílias. O livro nasceu no verão de 2014, quando a autora (mexicana, alfabetizada em inglês) voluntariou-se para ser tradutora dessas crianças nos tribunais americanos, o que torna a história ainda mais pessoal e notável. Que bom seria se todos nós conseguíssemos transformar nossas indignações políticas e frustrações em obras-primas como essa. Leiam.
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O que vocês têm lido de bom nessa quarentena?
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